May 25, 2022 bySophia Limpert

Atrasos na cadeia de abastecimento: vieram para ficar ou são apenas uma fase?

Se tem recebido notificações sobre contratempos nas remessas, recebe encomendas dias ou semanas mais tarde do que o previsto ou vê as prateleiras das lojas mais vazias do que o habitual, está a observar os efeitos secundários dos atrasos na cadeia de abastecimento global.

A Covid-19 foi o principal catalisador dos atrasos na cadeia de abastecimento global, o que provocou perturbações radicais no delicado setor do comércio eletrónico. O surto de Covid-19 e os confinamentos que se seguiram obrigaram as pessoas a comprar tudo e mais alguma coisa online, desde bens essenciais a artigos para passatempos, escritórios em casa e ginásios domésticos. Muitos economistas presumiram que, ao fim de alguns meses, os consumidores esgotariam a sua procura online de produtos, permitindo que a cadeia de abastecimento recuperasse o atraso. No entanto, embora a Covid-19 tenha abrandado, as encomendas online não abrandaram; e uma conjugação perfeita de vários fatores agravou os problemas da cadeia de abastecimento. Enfrentamos agora grandes atrasos na cadeia de abastecimento, que estão a afetar países de todo o mundo.

Dado o número crescente de entregas atrasadas, pode ser útil saber o que está a contribuir para os atrasos na cadeia de abastecimento global.

Para ajudar a explicar por que motivo não encontra determinados artigos ou por que razão as encomendas ainda não chegaram, este artigo aborda os seguintes pontos:

  • O que são atrasos na cadeia de abastecimento?
  • O que causou os atrasos na cadeia de abastecimento?
  • Qual é o futuro das cadeias de abastecimento?

O que são atrasos na cadeia de abastecimento? 

A cadeia de abastecimento consiste numa série de processos que facilitam a produção e a distribuição de mercadorias. Qualquer atraso cria um efeito dominó de perturbações no fluxo normal do ecossistema global do comércio eletrónico.

O enorme afluxo de compras online e transfronteiriças nos últimos dois anos deixou empresas e particulares — incluindo fabricantes, retalhistas, expedidores e exportadores — desesperados por recuperar o atraso.

Considere este cenário pré-pandemia: o consumidor encomenda roupa a um retalhista online estrangeiro. O retalhista embala e expede a encomenda. A menos que tenha sido escolhido um método de envio expresso, a encomenda será muito provavelmente colocada num contentor para ser carregada num navio de carga. O navio chega ao porto de destino, o contentor é descarregado para um camião e a carga é depois transportada até à estação de correios mais próxima, para ser encaminhada para o destinatário correto. Por fim, a encomenda é entregue com sucesso à porta de casa — tudo no prazo de uma a duas semanas!

Agora, vejamos o mesmo cenário com os atrasos adicionais na cadeia de abastecimento. Se quiser encomendar roupa a um retalhista online estrangeiro, talvez não o consiga fazer. Devido a atrasos e escassez, determinadas peças e materiais de produção não estão disponíveis, o que significa que muitos artigos estão esgotados. Quando os produtos estão em stock, o retalhista está provavelmente sobrecarregado pelo aumento das compras online e pela escassez de mão de obra provocada pela Covid-19. O enorme afluxo de remessas reduziu a disponibilidade de contentores marítimos. O espaço nos contentores disponíveis é limitado, o que atrasa as remessas durante semanas antes mesmo de serem carregadas.

Existem mais encomendas transfronteiriças online do que os contentores conseguem atualmente comportar. Mesmo durante o transporte, os navios podem sofrer atrasos devido a viagens canceladas (blank sailing), que ocorrem quando um navio não faz escala num ou mais portos previstos. Quando a encomenda chega ao porto de destino, é provável que fique parada durante algumas semanas, porque a escassez de estivadores abrandou significativamente o processo de carga e descarga de contentores. Depois de descarregada, a remessa tem de esperar por um camião (também há escassez de camiões de transporte) que a leve até ao distribuidor nacional ou serviço de entregas local mais próximo. É possível que a sua encomenda só chegue semanas ou até meses depois de ter sido feita.

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O que causou os atrasos na cadeia de abastecimento? 

Embora a Covid-19 tenha dado início aos atrasos na cadeia de abastecimento, os problemas daí resultantes vão durar mais do que o vírus. A escassez, a procura e o estilo de vida contribuíram para os atrasos que se mantêm.

A catástrofe da Covid-19

O vírus da Covid foi detetado pela primeira vez em Wuhan, na China. A China é um enorme polo de fábricas e armazéns de produção, para onde muitas empresas subcontratam a sua produção. Foi necessário adotar medidas de segurança, pelo que as fábricas fecharam, os trabalhadores ficaram em quarentena e a produção parou. Só isto causou uma enorme perturbação na cadeia de abastecimento; desde então, as fábricas e os fabricantes têm andado a tentar recuperar o atraso.

A pandemia não eliminou os gastos, mas antes os deslocou. As compras de comércio eletrónico centraram-se em equipar escritórios em casa, ginásios domésticos, equipamentos de jogos e outros artigos que proporcionassem entretenimento durante as quarentenas e os confinamentos. Antes da pandemia, as vendas online representavam menos de 15% das vendas a retalho; agora, cerca de 20% das vendas a retalho são feitas online.

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Escassez

Défice geracional

A pandemia também teve efeitos indiretos na cadeia de abastecimento. Os governos de várias partes do mundo distribuíram apoios financeiros e aumentaram os subsídios de desemprego. Isto proporcionou uma rede de segurança a quem dela precisava e, para outros, permitiu ser mais seletivo na escolha da oportunidade de emprego seguinte. O resultado foi uma escassez de trabalhadores em quase todos os setores, embora outros fatores também contribuam para essa escassez.

O baby boom decorreu entre 1946 e 1964; esses bebés têm agora entre 58 e 76 anos. A força de trabalho está a diminuir porque uma parte considerável está a reformar-se ou a preparar-se para isso. No outro extremo, a Geração Z (Gen Z) está a entrar no mercado de trabalho, o que deveria equilibrar as coisas, certo? Não. Muitos dos empregos que os baby boomers deixaram são empregos que a Geração Z considera pouco atrativos, pelo que continuam por preencher. As empresas que contratam membros da Geração Z também correm riscos. Um estudo da Microsoft revelou que 54% da Geração Z pondera deixar o emprego e a Bankrate indicou que 77% pondera despedir-se. A Geração Z espera que o mundo do trabalho valorize as mesmas coisas que ela valoriza e, se o emprego ou a empresa atual não estiver alinhado com os seus valores, não hesitará em despedir-se e procurar um emprego mais adequado ao seu estilo de vida. Além disso, quando os bebés da Geração Z nasceram, os cordões umbilicais foram praticamente substituídos de imediato por smartphones.

Os smartphones e as redes sociais transformaram as interações presenciais em ocasiões raras, o que provocou um aumento alarmante da ansiedade e da depressão, prejudicando a capacidade de trabalho. A combinação de subsídios de desemprego excessivos e prolongados, da reforma dos baby boomers e da baixa tolerância ao trabalho da Geração Z deixou muitos anúncios de «Contrata-se» por responder durante anos.

A mão de obra é o elemento mais essencial para manter o fluxo da cadeia de abastecimento. Sem trabalhadores, as perturbações na cadeia de abastecimento multiplicam-se exponencialmente.

Sem camiões? Que azar!

As docas de carga estão a viver uma tempestade perfeita de congestionamento, entre o enorme afluxo de navios de importação do comércio eletrónico e uma escassez extrema de estivadores. Os efeitos da escassez e da procura deixaram o maior porto dos EUA com mais 30% de remessas e menos 28% de trabalhadores em comparação com o período anterior à Covid-19. Depois de os poucos estivadores que restam descarregarem todas as remessas transfronteiriças, não há contentores, camiões TIR nem motoristas suficientes para retirar as remessas do porto e levá-las até ao destino final. Sabemos por que razão há escassez de motoristas, mas o que dizer da escassez de contentores e de camiões TIR?

Estamos a entrar numa recessão mais depressa do que os adolescentes a enviar mensagens diretas ao Harry Styles e ainda não ultrapassámos a anterior, já que a recessão de 2008 continua a assombrar-nos. As empresas de transporte foram obrigadas a reduzir novos investimentos de capital, incluindo a compra de camiões. Quando a recessão de 2008 levou toda a gente a cortar nos gastos, a procura era tão baixa que as empresas não se podiam dar ao luxo de ter camiões TIR a mais; um défice que o setor não compensou nos anos seguintes. Alix Miller, presidente e CEO da Florida Trucking Association, afirma que faltam 100 000 camiões nos EUA. Além disso, as empresas que encomendaram camiões vão ter de esperar algum tempo. Centenas de milhares de camiões encomendados por empresas estão em lista de espera, a aguardar chips informáticos e peças fabricados no estrangeiro.

Os chips não servem só para a lista de compras

Outro efeito indireto da Covid-19 foi o facto de uma enorme percentagem da população mundial ter passado a trabalhar a partir de casa, o que obrigou a equipar os trabalhadores com tecnologia doméstica, além da que já existia no escritório. A procura de dispositivos como computadores portáteis, entre outros equipamentos eletrónicos, aumentou substancialmente. Enquanto as pessoas se apressavam a arranjar Macs ou Chromebooks, quase ninguém procurava comprar um Subaru ou um Honda. À medida que a procura de eletrónica aumentou em 2020, as vendas de automóveis diminuíram. No entanto, se está a pensar comprar um carro neste momento, provavelmente já reparou que os preços parecem um pouco mais elevados e que falta stock.

Então, o que têm em comum os escritórios em casa, os carros e as listas de compras? Todos precisam de chips. Os carros atuais precisam de centenas ou milhares de chips semicondutores, mas como os carros tiveram pouca procura durante alguns anos, os chips foram canalizados para a produção de equipamentos eletrónicos mais pequenos. A maioria dos fabricantes de automóveis não consegue agora obter chips semicondutores suficientes, pelo que foram obrigados a reduzir a produção. As vendas de consolas de jogos, computadores portáteis, smartphones, etc. são uma questão mais premente para muitos consumidores, pelo que os chips que estão a ser fabricados vão para essas empresas e não para os automóveis. Algumas empresas começaram a acumular chips, o que só agrava a escassez na cadeia de abastecimento.

Uma procura avassaladora

Todas as secções anteriores abordaram a procura, mas o volume da procura é inimaginável… e obviamente impossível de gerir. As vendas online representaram cerca de 3,35 biliões de dólares (USD) em 2019, mas prevê-se que esse valor aumente para 5,5 biliões de dólares (USD) até ao final de 2022. Os inquéritos mostram que 75% das pessoas compram online pelo menos uma vez por mês. Com o acesso cada vez mais alargado à Internet e o aumento das compras de smartphones, o número de compradores online cresce diariamente. A acessibilidade, a eficiência, a comodidade, a possibilidade de comparar preços e a variedade que as compras online oferecem são razões mais do que suficientes para explicar o aumento aparentemente interminável da procura.

Clientes habituados

Comprar online tornou-se um modo de vida — um novo normal. Embora os fabricantes e as empresas de transporte tenham presumido que a procura cairia após a pandemia, isso não aconteceu. Os compradores mais velhos, que antes da pandemia não estavam habituados a comprar online, tiveram de aprender e passaram a preferir a comodidade. A comodidade é um fator essencial para muitos compradores; se conseguem encontrar produtos mais depressa e mais baratos sem sair de casa, por que razão haveriam de abdicar disso? A Geração Z já está mais habituada a fazer tudo online, pelo que se sente naturalmente à vontade no comércio eletrónico. A procura continua a crescer porque mais pessoas se aperceberam da facilidade de comprar online. A procura crescente e a diminuição dos recursos provocaram, consequentemente, atrasos na cadeia de abastecimento.

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Qual será o destino da espera na cadeia de abastecimento? 

Embora o crescimento seja benéfico para alguns retalhistas, muitas empresas não conseguem acompanhar a procura. Os elos em falta na cadeia de abastecimento têm de ser reparados ou substituídos antes de podermos esperar que os prazos de entrega, os preços e a organização estabilizem.

Muitas fábricas, fabricantes, retalhistas e empresas estão atolados a tentar recuperar o atraso devido à combinação da pandemia; da escassez de trabalhadores, camiões e chips informáticos; da procura em forte subida; e da rápida adoção das compras online em todo o mundo.

Então, a espera e a recuperação do atraso vão durar para sempre? A boa notícia é que já estão a ser implementadas práticas que vão atenuar e, esperamos, pôr fim aos atrasos na cadeia de abastecimento. Estas práticas incluem a diversificação, a definição de prioridades, o conhecimento dos clientes, a utilização de tecnologia mais avançada, entre outras.

Dicas para lidar com os atrasos na cadeia de abastecimento 

Enquanto espera pela chegada das suas encomendas, fique atento ao nosso próximo artigo do blogue sobre boas práticas e dicas para lidar com a cadeia de abastecimento.

Author
Sophia Limpert
Published: May 25, 2022
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